Ao perceber que estava cercada toda de preto não teve dúvidas. Estava sim de luto. Custou cair em si, mas estava agora mergulhada na sua tristeza mais profunda: a perda.
O colchão preto, a manta, o sofá, o computador, as roupas, os móveis, o tapete na sala, a tv nova, o blog, o carro, o cachorro, o piano, o violão, os sapatos e as malas de mão. Tudo era preto, negro, obscuro. Não havia mais luminosidade, esperança, leveza. Tudo era muito denso, pesado, sabrecarregado, mortal.
Pela primeira vez percebeu seu estado depressivo. Pela primeira vez se viu incapaz de sair dele. Viveria assim para sempre? Chorou por dentro. Estava tão desgastada daquela situação de tentar se superar para no fim não dar em nada. Perdeu a fé, nos outros, na vida, em si mesma e até em Deus. Se sentia uma estrela solitária, brilhando uma luzinha fraca no meio do inifinito.
De repente sonhou com ele. Logo ele, que segundo ela foi o culpado de trazer tanto desespero lá da sua terra maldita. Ele acabara de comprar quadros, móveis, sei lá. Algum pacote branco bem grande que carregava entre os braços. Usava uma camiseta da ecko azul-marinho, uma D&G jenas - que marcava suas belas pernas, um nike-air branco, um cartier prata e um colar de metal da levis. Sim, ela conseguiu detectar tudo isso em um flash de segundo.
Ela estava perdida na sua própria cidade. Num setor que conhecia muito bem. Estava perdida entre prédios familiares, entre parques de frequentes caminhadas. Estava perdida e não conseguia achar uma lojinha de molduras de quadros. Se viram, mas pela primeira vez sua reação não foi de medo e nem de fuga. Sorriu, se cumprimentaram, trocaram algumas palavrinhas e pediu a informação urgente.
Por incrível que pareça ou ironia do destino era justamente a que ele tinha acabado de sair, e informou pra ela seguir a direita. Se despediram. Foram em direção opostas, como sempre. Achou a tal da lojinha, pena que não dava pra colocar seus desenhos na moldura como queria. Rodou, rodou e viu que não adiantou nada. Porque no fim quem dita as regras é mesmo a vida e se arrependeu por ter ficado perdida e andando pra lá e pra cá em vão.
Por isso voltou a sua rotina mediocre. De ficar horas inoperante. De não lutar pelo vão. Era tão sinistro ver pessoas na mesma situação fazendo um esforço tremendo por algo que simplesmente não ia acabar dando resultado nenhum no final. Voltou para o seu colchão, manta, sofá, carro, cachorro, tapete, amante, tudo preto, tudo negro, tudo pesado, tudo vazio.
E decidiu só trocar sua cor pela vermelha. Talvez quando morresse.